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JOÃO AUGUSTO DE CASTRO NEVES, DIRETOR DA EURASIA GROUP – Este será um ano de bastante barulho na política

Paula Bezerra – Isto é Dinheiro

Quando o cientista político João Augusto de Castro Neves trocou os corredores agitados de Brasília pelos Estados Unidos, em 2010, ele não imaginava o caos político que encontraria na capital americana. Mas o presidente Donald Trump não é a principal preocupação do brasileiro, que tem uma visão privilegiada dos problemas nacionais. Especialista em integração regional e política externa, Castro Neves deixou a CAC, consultoria de análise e estratégia da qual era co-fundador, para liderar a equipe de riscos de América Latina e Brasil na consultoria Eurasia Group.

Em 2014, ele previu a reeleição da presidente Dilma Rousseff e, desde então, ganhou notoriedade pelas previsões assertivas sobre o turbulento momento político do País, que ajudaram a consultoria americana a virar referência global no diagnóstico doméstico e regional. Agora, além de avaliar os impactos da Lava Jato para a economia, ele adicionou o risco Trump à agenda brasileira. Saiba como isso pode afetar os seus negócios na entrevista a seguir:

din1007_azuis2-418x235DINHEIRO Como o senhor avalia os rumos da Operação Lava Jato para o Brasil?

 

JOÃO AUGUSTO DE CASTRO NEVES Para começar, temos que avaliar a maneira como estamos vendo o Brasil e o governo Michel Temer. O País está passando por dois grandes ciclos de transformação. O primeiro é mais óbvio e mais planejado, que é a agenda de reformas. Algumas delas começaram de uma maneira mais discreta com o ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy, como uma correção ao rumo da economia, e estão sendo aprofundadas com Temer. A agenda de reformas fiscais, por exemplo, é bem ambiciosa. O segundo ciclo vem da Lava Jato e dessas investigações. Isso mostra a estrutura de um Judiciário mais independente e com autonomia. Mas é, também, o fechamento de um processo transformador, de mudança da relação público e privado no Brasil, entre os principais atores, o Estado e as empresas.

 

DINHEIRO Há chance de tentarem barrar essas investigações?

CASTRO NEVES Mesmo se tentarem conter as investigações, a Lava Jato não vai acabar. Agora começa uma reação da classe política, que pode tentar barrar as investigações, principalmente, porque estão ficando mais próximas a eles. Antes, o foco estava concentrado nas empresas. Isso será suficiente para conter as investigações da Lava Jato? Eu acho que não. A questão das delações veio para ficar. A natureza da Lava Jato está descentralizada. Não é mais o juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Há desdobramentos no Rio de Janeiro e em outros estados; e inclusive no próprio Supremo Tribunal Federal. O processo passou a funcionar como células independentes no País, o que torna muito difícil um movimento para conter as investigações. Apesar de ter dado sinais ambíguos e de ter indicado algumas pessoas que podem estar envolvidas no esquema de corrupção, o próprio Temer vai tomar decisões a favor das investigações, se em algum momento for pressionado. Foi o que ele fez quando demitiu ministros envolvidos. Então, creio que a Lava Jato é um ciclo que continua ainda mais intenso e como uma nuvem negra que ameaça o sistema político como um todo.

 

DINHEIRO Quais as chances de o presidente Michel Temer não concluir o mandato?

CASTRO NEVES O governo Temer sobreviverá. Apesar dessa turbulência, existe um custo grande e crescente de tirar o presidente. Primeiro, porque é difícil. A possibilidade de o presidente sair por um impeachment é quase impossível. Existem todas as especificidades legais. Óbvio que existe a possibilidade de o relator do Tribunal Superior Eleitoral [Herman Benjamin] pedir a cassação da chapa nas próximas semanas. É mesmo provável que o relator peça, mas é improvável que o TSE siga por esse caminho. Mas, à medida que Temer tiver mais tempo para aprovar as reformas e a economia der sinais de recuperação, isso reduz a pressão no Judiciário para tirá-lo. Todo o caos político vai gerar impactos econômicos e aprofundar mais a crise. Também, para colocar um novo presidente, o único cenário com a queda de Temer é o de eleição indireta. Isso causaria mais pressão, já que seria alguém com menos legitimidade. A população é muito crítica ao Congresso.

 

DINHEIRO Esse cenário todo pode impactar as próximas eleições?

CASTRO NEVES Ainda é muito cedo para fazer uma previsão específica para 2018, mas conseguimos observar duas características. A primeira é a despolarização. Tudo indica que 2018 será semelhante às eleições de 1989, em que tínhamos muitos candidatos competitivos. Hoje, já vemos alguns nomes como Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Ronaldo Caiado, além de três ligados ao PSDB. Então, esse cenário de fragmentação é mais competitivo, o que torna mais difícil fazer uma previsão – até porque qualquer um pode ir para o segundo turno. A segunda característica é esse sentimento antipolítica e de frustração com a classe política que não está entregando o que a população quer. É o que observamos nos EUA, com a eleição do Donald Trump, e na Europa, com o Brexit. Essas duas características aumentam o risco Brasil .

DINHEIRO Essa frustração pode criar um Donald Trump brasileiro?

CASTRO NEVES O que eu colocaria como observação é que o sistema político do Brasil dá muita importância aos partidos tradicionais, diferentemente dos EUA e da Europa. O tempo de horário político na televisão, o financiamento de campanha, tudo isso reduz muito a chance de um forasteiro vencer uma eleição. Claro que não elimina o risco, mas reduz muito. Um exemplo disso foi a eleição municipal em 2018, com o candidato João Dória vencendo a prefeitura de São Paulo. Ele era um candidato não político, mas filiado a um partido tradicional. Hoje, o não político parece ser uma vantagem. Isso pode ser uma opção para os partidos mais tradicionais, não só na direita, mas na esquerda também. Mas também não podemos considerar que houve uma guinada à direita no Brasil. Porque, na verdade, o que houve foi uma explosão do PT. Se tirar o PT do cálculo, os outros partidos não perderam forças. A guinada para a direita na eleição municipal foi menos ideológica. Não foi uma busca pela direita, foi uma crítica ao PT. Não por ser de esquerda, mas por ter presidido o Brasil em uma das piores crise econômicas.

 

DINHEIRO A continuidade da crise econômica pode aprofundar a instabilidade política?

CASTRO NEVES Em termos econômicos, o pior já passou. O fundo do poço foi em 2016. O lado bom, de fato, é a retomada. O PIB já entra em território positivo, depois de dois anos no campo negativo. O Brasil teve uma década perdida em três anos, em termos de crescimento. Então, neste ano, o PIB já será melhor que no ano passado e a inflação vai convergir para a meta. Mas ainda não saímos totalmente da zona de perigo. O grande problema é o desemprego. Mesmo com a retomada econômica, ele permanecerá alto e isso cria cenários de tensões, ainda mais no contexto de o presidente tentar implementar propostas impopulares. O risco de protestos continuará. O grande ponto é que não era um problema só. Não era o PT. Houve uma lista de fatores que causaram a crise, da má administração do governo Dilma à queda no preço das commodities. Porém, existem problemas estruturais, como a questão da previdência. Isso vem de muito antes. A recuperação da economia está demorando porque o problema é mais profundo do que achavam. Viramos a esquina agora com melhorias lentas, mas os riscos políticos continuarão. A Lava Jato, mesmo sem ferir de morte, pode impactar os ministérios e produzir volatilidade. Este será um ano de bastante barulho na política.

 

DINHEIRO A agenda de reformas é o suficiente para conseguir conter a crise?

CASTRO NEVES Difícil saber, mas temos algumas que são cruciais. A direção está correta. A mudança de direção foi dada por meio do ajuste proposto pelo ex-ministro Joaquim Levy. Ele não tinha apoio da presidente Dilma, porque foi uma correção movida pela necessidade, e não pela convicção. Neste caso, Temer é movido pela convicção. O debate é para ver se está acontecendo na velocidade que tem de ser. As reformas são o ponto chave para que o Brasil comece a retomar um ritmo de crescimento sustentável. Lembrando que o crescimento nos últimos anos foi fortemente baseado no consumo e na exportação. Hoje, porém, o desafio é tentar equilibrar com um crescimento movido pelo investimento por meio de setores chaves, como infraestrutura. É isso que estão tentando fazer. Abriram o pré-sal, vão tentar melhorar marcos regulatórios para atrair mais investimentos. É uma transição lenta.

 

DINHEIRO Mas o que o governo precisa entregar até o final do ano para conter o risco Brasil?

CASTRO NEVES As principais reformas. Talvez o governo não consiga tudo, mas a questão fiscal e a da previdência, deve conseguir. Eu somaria na hierarquia do governo duas crises paralelas às estruturais (que são a previdência, a trabalhista e a tributária): as reformas microeconômicas e a questão do petróleo. O mais importante é sinalizar aos investidores que a situação fiscal está se estabilizando. Se Temer passar a reforma da previdência e algumas outras pontuais, entrará para a história como o presidente que conseguiu imprimir essa mudança de curso para uma racionalidade fiscal maior. E abriria caminho para um próximo presidente se concentrar em uma nova rodada de reformas, como a tributária e a de comércio exterior.

din1007_azuis3-418x235DINHEIRO Quais são os principais riscos que o presidente Donald Trump pode trazer para a América Latina e para o Brasil?

CASTRO NEVES Donald Trump significa um risco geopolítico, dada a relação diferente com a Rússia e com a China. Para a economia, ele vem com uma escalada protecionista. Agora, pretende renegociar o Nafta e saiu da Parceria Transpacífico, o TPP. Isso tudo é negativo para o mundo. São exemplos protecionistas globais que também são ruins para o Brasil. O que não podemos esquecer é que o Brasil é uma economia muito fechada na relação comercial, o que relativiza as perdas com mudanças de rumos geopolíticos, diferente do México, que está à mercê dos EUA. Com o governo Trump, a América Latina tem agora uma nova oportunidade de se reorganizar localmente com o governo Trump. É como se existisse uma nova linha de Tordesilhas dividindo os países protecionistas do Mercosul dos liberais da Aliança do Pacífico. Esse é o momento dessa linha se apagar e dos países criarem iniciativas para estreitar os laços comerciais. Somado a isso, também tivemos mudanças no governo da Argentina e do Brasil. A política comercial brasileira, nos últimos 15 anos, deixou muito a desejar. O Brasil ficou para trás por estar vinculado ao Mercosul. O Trump zerou esse jogo. Acabou com o TPP, com o acordo com a União Europeia. O que isso significa para o Brasil? O País vai ter uma oportunidade de eliminar o atraso. A começar pelo Mercosul, com a Argentina.

 

DINHEIRO Mas o Brasil tem a ganhar com o Trump?

CASTRO NEVES Ganhar com o Trump é pedir demais, mas não temos o risco que o México tem. Se eu falar que o Brasil tem algo a ganhar, pode parecer ingênuo. Porém, o País não está no radar do republicano. Isso é bom. Podemos aproveitar para atualizar nossa agenda comercial. É preciso levar em consideração, porém, que o Brasil não é uma prioridade.

 

DINHEIRO A China vai ocupar o vácuo deixado pelos EUA no contexto internacional?

CASTRO NEVES A tendência é que os EUA se retraiam economica e politicamente. No entanto, não existe vácuo político no contexto global. Ele será tomado por outros países. Na Ásia, o mais natural é que a China ocupe esse lugar. Mas vai variar de região para região. Trump questiona as instituições do pós-guerra, como o Banco Mundial, o FMI, a ONU. Enquanto a China constrói novas instituições, o que tende a ganhar força no mundo. Com a maior potência global imprevisível, o Brasil e outros países terão incentivo para não depender apenas de um país. O papel da China na economia mundial vai aumentar, embora ela não consiga substituir os EUA. Nenhum país tem esse papel, mas o mundo será mais fragmentado.

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